SOPERJ - Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro

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*Recomendações do Projeto EarlyNutrition

 

Autor: Maria Cristina Faulhaber
Departamento de Nutrologia /SOPERJ

 

No mundo todo a obesidade é considerada um dos maiores problemas de saúde. Atualmente 65% da população vive em países onde sobrepeso e obesidade são responsáveis por mais mortes do que a desnutrição. O aumento de indivíduos obesos, em particular as crianças, adquiriu proporções epidêmicas e ameaçam a sustentabilidade dos programas de saúde pública. Nos países desenvolvidos 10% dos custos em saúde são gastos tratando doenças relacionadas à obesidade.

               Embora a obesidade seja prevenível, seu rápido aumento não é suficientemente explicável por mudanças no estilo de vida ou de dieta.
Por esse motivo, o conceito de programação precoce de risco de obesidade através do estudo da nutrição antes e durante a gravidez, além da primeira infância, tem recebido especial atenção dos pesquisadores. Conhecimento sobre a programação transgeracional da obesidade e comorbidades, assim como dos efeitos da dieta e estilo de vida materno e suas escolhas na saúde do filho são informações que oferecem novas opções para prevenção e promoção de saúde e bem-estar.

               Pesquisadores da União Europeia financiados pelo projeto de pesquisa internacional EarlyNutrition consolidaram evidências científicas e recomendações para formular orientações e consenso sobre nutrição e estilo de vida antes e durante a gravidez, durante a amamentação, durante a infância e primeira infância, que levam em conta o impacto na saúde a longo prazo. Revisões sistemáticas foram realizadas em dietas, orientações, normas e recomendações, com especial atenção às consequências para a saúde a longo prazo. Além disso revisões sistemáticas publicadas sobre intervenções ou exposições na gravidez e em bebês e crianças de até 3 anos que descrevem efeitos sobre excesso de peso, obesidade e composição corporal foram realizados. Especialistas desenvolveram recomendações de consenso incorporando a ampla experiência de outras 33 partes interessadas.

                     . Estas recomendações são desenvolvidas para grandes populações, como mulheres e as crianças na Europa, e devem contribuir para a prevenção primária da obesidade e doenças crônicas não transmissíveis.

 

Recomendações durante a pré-concepção

               Desfechos saudáveis da gravidez são mais prováveis se a mulher for fisicamente ativa, tiver uma dieta saudável, não for tabagista, evitar o consumo de álcool e tiver um IMC normal. A nutrição e o estilo de vida são particularmente importantes no que se refere à obesidade materna, que é o fator mais significativo em relação ao risco da criança se tornar obesa. Estudos mostraram que intervenções em mães grávidas obesas com uso de drogas como metformina e comportamental como dieta/atividade física durante a gravidez tem impacto limitado nos desfechos perinatais da mãe e da criança, sugerindo a necessidade de intervenção antes da concepção.

Devem ser realizados esforços para que o peso adequado seja atingido antes da gravidez. Mulheres que estão abaixo do peso não devem ser negligenciadas e são mais propensas a apresentar deficiência de nutrientes importantes como folato, ferro, vitamina D, vitamina B12 e iodo, entre outros. Evidências robustas enfatizaram a suplementação rotineira de ácido fólico na pré-concepção. São boas fontes na dieta legumes, vegetais folhosos, repolho, produtos integrais, tomates e laranjas. A complementação de pelo menos 400 μg de ácido fólico por dia, começando antes da concepção e continuando até o primeiro trimestre da gravidez reduz acentuadamente o risco para defeitos congênitos graves, em particular defeitos do tubo neural.

 

Recomendações nutricionais em mulheres grávidas

                     Gestantes devem consumir uma dieta balanceada cujas recomendações são as mesmas que para a população em geral. O aumento da ingestão diária de calorias não deve ultrapassar 10% do recomendado para mulheres não grávidas. O conceito de “comer por 2” é um mito que deve ser dissipado.
      As recomendações internacionais são para aumentar a ingestão de energia em cerca de 85 kcal por dia no primeiro trimestre, 285 kcal por dia no segundo trimestre e 475 kcal por dia no terceiro trimestre. Fatores que podem indicar uma maior exigência de energia incluem gravidez na adolescência (quando o crescimento das mães promove uma demanda maior de nutrientes), trabalho físico duro ou excessiva atividade física, gravidez múltipla e doenças  infecciosas. Ainda não há um consenso que defina qual o ganho ponderal ideal na gravidez. 
                     O consumo regular de ômega 3 LC-PUFA reduz o risco de prematuridade abaixo de 37 semanas, particularmente o nascimento antes de 34 semanas. É recomendado o consumo diário de pelo menos 300 mg do ácido graxo docosahexaenoico ômega-3 (DHA). Isso pode ser obtido com a ingestão duas vezes por semana de  peixes como arenque, sardinha, salmão, bacalhau, linguado e cavalinha.. 

             É recomendado o consumo diário de 400 µg de ácido fólico pelo menos nas primeiras 16 semanas de gestação. Deve também ser avaliada a suplementação de ferro, vitamina D, vitamina B12, iodo e vitamina A. Especial atenção deve ser dada às mulheres vegetarianas para suplementação de B12. A suplementação de vitamina D (400 UI por dia) pode ser necessária em gestantes que se expõem pouco ao sol, as com pele escura e que vivem em áreas de baixa exposição solar. Carnes cruas ou não totalmente cozidas e outros alimentos crus (como salame, salsicha, presunto, ovos peixes e frutos do mar), leite não pasteurizado, bem como alimentos feitos com esses produtos, que não são cuidadosamente cozidos, devem ser evitados durante a gravidez.  Doenças transmitidas por alimentos, como listeriose e toxoplasmose, podem causar danos fetais graves, parto prematuro e natimorto.

 

Recomendações nutricionais em mulheres que amamentam

               Mulheres que amamentam devem consumir uma dieta balanceada que forneça quantidade adequada de nutrientes e promova redução da retenção de peso pós-parto.

               As mulheres que amamentam não devem ser encorajadas a modificar ou complementar sua dieta com o objetivo de reduzir o risco da criança mais tarde desenvolver sobrepeso ou obesidade. A maioria dos estudos foca no suprimento materno de LC-PUFA, havendo evidência de uma ligação entre o consumo de peixe e maior DHA no leite materno, mas nenhuma evidência foi conclusiva sobre os efeitos no crescimento infantil, posterior composição corporal ou outros resultados. A ingestão de vitamina D e de probióticos não afetou o risco tardio de sobrepeso ou obesidade.

 

Recomendações nutricionais em crianças menores de três anos

        A amamentação deve ser promovida e estimulada, pois além de muitos outros benefícios, pode contribuir para a redução do risco de sobrepeso e obesidade. Bebês nascidos a termo que não sejam amamentados devem receber uma fórmula infantil com uma oferta de proteína que se aproxime da que seria fornecida com a amamentação. Diversas metanálises mostraram que o rápido aumento de peso durante os dois primeiros anos de vida está fortemente associado ao risco  de desenvolver obesidade.
                     Diminuir o teor de proteínas da fórmula fornecida para lactentes, em relação ao conteúdo proteico mais convencional como recomendado na década de 1980, é uma intervenção que pode reduzir o risco de excesso de peso e obesidade em crianças. Estudos demonstraram que  fórmulas com reduzido teor de proteína impediram o ganho excessivo de peso precoce e reduziram significativamente a prevalência de obesidade na idade escolar. 

            Não há evidências de efeitos benéficos sobre o risco de desenvolver obesidade associado ao uso de fórmula a base de proteína de soja isolada ou com adição dos chamados “prebióticos”, “probióticos” ou LC-PUFAs.

É recomendado evitar o leite de vaca ou outros leites animais no primeiro ano de vida e que o consumo seja limitado em cerca de 2 xícaras por dia no segundo ano de vida. Sabe-se que estes leites contêm cerca de 3 a 4 vezes mais proteína do que o leite humano e são inadequados nutricionalmente.A alimentação complementar não deve ser introduzida antes da idade de 17 semanas e nem após 26 semanas, e o uso de açúcar em sucos e alimentos deve ser limitado.

                     As recomendações aqui apresentadas podem ser vistas  www.karger.com/doi/10.1159/000496471 (texto completo), em diversos idiomas europeus em http://www.project-earlynutrition.eu e também em um e-Learning global de acesso aberto para profissionais de saúde www.early-nutrition.org. 
      Abril / 2019

 

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